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Por Kelvin Falcão Klein (para SalaGrumo)
Em La conspiración de las formas (UNIPE: Editora, 2011), o hieróglifo é apresentado como categoria de trabalho diante do pensamento contemporâneo, ou ainda, como uma forma alternativa de gerar cortes na história – um espécie de filtro que Crespi movimenta, aumentando ou diminuindo o foco segundo a necessidade das citações que colhe. Esta movimentação se torna particularmente precisa na primeira parte, pois gravitam em torno das revistas inúmeros nomes literários de peso, como Juan Carlos Onetti, Oliverio Girondo e Enrique Molina, e em alguns casos Crespi consegue ressaltar tanto o detalhe pessoal quanto a fundamental reunião de nomes e ideias proporcionada pelos periódicos. Essa movimentação se dá em um tempo histórico preciso, pois Letra y línea circulou em 1953 e 1954, Literal em 1973, 1975 e 1977, e Sitio de 1981 a 1987. Temos, portanto, um cenário complexo, que vai de Perón à ditadura militar e à Guerra das Malvinas, agregando muitas irresoluções durante o percurso. Além do mais, trata-se também do contexto de emergência do pós-estruturalismo, e essa aproximação histórica oferece ainda mais coesão à articulação entre os blocos de La conspiración de las formas. No caso de Sitio, a questão da convivência (ou, para dizê-lo com Barthes, fundamental à argumentação de Crespi, a questão do Viver-Junto) é especialmente relevante, pois a revista incorporou como política cultural a união das vozes e a elaboração de um discurso atravessado por muitas presenças. Crespi ressalta o quão denso era o grupo de Sitio, que incluía nomes como Luis Gusmán, Eduardo Grüner, Osvaldo e Leónidas Lamborghini, Rodolfo Fogwill, Silvia Molloy e Néstor Perlongher, além de também apontar como todos eles faziam questão de, no espaço de Sitio, refletir seriamente sobre os caminhos políticos então em voga na Argentina.
Se o hieróglifo, como aponta Crespi, é o signo arrancado de sua língua de origem, ele se torna uma imagem da resistência da significação e do atrito inerente ao trabalho com a linguagem. É nesse sentido que seu livro trata dos deslocamentos de corpos e de palavras-chave, e é também a partir deste ponto de vista que acontece a articulação entre América Latina e Europa, resultando, em ambos os casos, em um pertencimento sempre impuro e sempre em construção, pois “el jeroglífico es”, escreve Crespi, “la prueba incontestable de otra posibilidad de vida de los signos, diversa de aquella que, naturalizada, se autofigura como la ‘única‘ en las estructuras de lo imaginario” (p. 20). O hieróglifo é o resíduo que permite a mobilidade do signo, que acolhe o signo no momento de sua emergência e de seu deslocamento. O hieróglifo não é simplesmente o signo (uma versão do signo ou outro nome para o signo) porque sua relação com a linguagem é sempre histórica: o hieróglifo é determinado a partir do antagonismo entre a submissão ao regime de verdade e a tentativa de desvio. Chega-se, portanto, à conclusão de que o ambiente propício para o cultivo do hieróglifo só pode ser a ficção, a potência do falso.
Quando reflete sobre os periódicos, Crespi afirma que Literal foi “precursora en la comprensión y reformulación de ciertos tópicos del posestructuralismo francés” (p. 118), e o interessante é que o autor realiza tanto a leitura de Literal (a dinâmica da escolha de textos e os critérios de desenvolvimento e direcionamento da revista) e, dentro desta leitura, as considerações da revista acerca do pós-estruturalismo, quanto a leitura do pós-estruturalismo diretamente, na segunda parte do livro. Ou seja, Crespi cerca um território e procura brechas produtivas pelos mais variados ângulos, destrinchando as diversas camadas que um texto de Caillois, Foucault ou Barthes oferece (com aparições igualmente produtivas de Blanchot e Deleuze). De resto, esse procedimento de compartilhamento da autoria e de ventilação das formas de repercussão de um texto está em consonância com a hipótese de que o hieróglifo, longe de ser uma instância pacífica do discurso, é, na realidade, um ponto privilegiado de observação da luta constante pela hegemonia no interior da esfera discursiva.
Por isso, Crespi aponta que “la relación que la literatura establece com el dispositivo de poder articulado sobre un régimen de verdad no es unívoca ni fácil de definir” (p. 175), pois está consciente que a própria necessidade de perpetuação literária (o sistema literário e suas ramificações) ocorre em íntima relação com os mecanismos que definem os “regimes de verdade” ou a “ordem do discurso”. Pensar o hieróglifo é pensar também na literatura moderna como um ardiloso misto de transgressão e aparência de transgressão, ruptura e aparência de ruptura, e assim sucessivamente. A partir de Foucault, La conspiración de las formas é um relatório da vigência de certa concepção da literatura como presença dupla, simultaneamente dentro e fora da estrutura repressiva do discurso, pois a literatura está sempre sob o risco de escorregar para a confissão, cedendo aos impulsos homogeneizadores e regulamentadores que lhe cercam – por isso a relevância da obra de autores como Raymond Roussel ou André Breton, frequentemente citados por Crespi, que apontam, mesmo que de forma póstuma, certas possibilidades de resistência.
Para finalizar, é possível afirmar que La conspiración de las formas oferece uma análise poliédrica da história cultural recente da América Latina. Trata-se de uma análise aberta aos influxos do passado e do presente, e também fascinada por aquela “região equívoca” do pensamento de que fala Foucault ao aproximar literatura e loucura (diagnóstico que Crespi, em nota na página 167, arrasta também em direção à crítica literária e à clínica analítica). A conspiração das formas, portanto, é a capacidade da palavra de inscrever em si mesma seu princípio de deciframento, sem que isso determine uma resolução unívoca ou uma função clara para a literatura (por isso a ênfase na conspiração, ou seja, um plano de boicote que nasce internamente). Um dos principais elementos que Crespi rastreia na literatura é a “potencia de autoimplicación que pone en suspenso el código que cifra el régimen de verdad de una época” (p. 171), e seu livro tem o mérito de registrar essa potência, mesmo quando ela aparece obliterada ou escamoteada.
Una crónica sobre el destierro
Hace 22 minutos


Jaime Rest,
El laberinto del universo. Borges y el pensamiento nominalista.
Eterna Cadencia, Buenos Aires, 2009.
(184 págs. | 14x22cm.)
Colección: Rescate.
Prólogo de Maximiliano Crespi
ISBN: 978-987-24830-4-3
Marcelo Damiani (comp.),
El efecto Libertella
Beatriz Viterbo Editora, Rosario, 2010.
(224 págs.; 14x20cm.)
Colección: Ensayos críticos.
ISBN: 978-950-845-250-4
Rocco Carbone y Ana Ojeda (comps.),
De Alfonsín al menemato (1983-2001).
Paradiso, Buenos Aires, 2010.
(360 págs.; 15x22cm.)
Colección: Literatura siglo XX (dirigida por David Viñas).
ISBN obra completa: 978-987-9409-60-2 | del vol. 7: 978-987-1598-19-9
Ana María Zubieta (comp.),
La memoria. Literatura, arte y política
Bahía Blanca, EdiUNS, 2008.
(254 págs.; 14x20cm.)
ISBN: 978-987-665-012-3
Maximiliano Crespi,
Grotescos
Ediciones de Barricada, Bahía Blanca, 2006.
(160 págs. | 10x17cm)
Colección: Nueva narrativa
ISBN: 978-987-22983-2-7

